O dark romance, como conhecemos hoje, não surgiu do nada nas plataformas digitais dos anos 2010. Ele representa o resultado de uma longa evolução literária que começou com o movimento romântico no final do século XVIII e atravessou diversas transformações temáticas, estilísticas e culturais até se tornar um subgênero comercial extremamente popular nos dias atuais. Essa progressão reflete o fascínio humano persistente pela paixão intensa, por relacionamentos obsessivos e pelas dinâmicas de poder desequilibradas, sempre temperadas com elementos de perigo, trauma e redenção (ou não).
Tudo começa com o Romantismo, movimento literário e artístico que surgiu na Europa como reação ao racionalismo excessivo do Iluminismo. Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, o Romantismo valorizava acima de tudo a emoção, a imaginação, o indivíduo, a natureza como força sublime e a paixão como motor da existência humana. No entanto, desde o início, esse movimento carregava um lado duplo: enquanto uma vertente era otimista e transcendental (acreditando no potencial elevado do ser humano), outra ramificação mais pessimista explorava o lado sombrio da condição humana. Essa ramificação recebeu o nome de Romantismo Sombrio.
O romantismo sombrio reflete a fascinação com o irracional, o demoníaco, o grotesco, a falibilidade humana, o pecado, a culpa, a autodestruição e os efeitos psicológicos profundos da moralidade. Diferente do romantismo otimista, ou idealismo romântico, que via beleza e transcendência na emoção, o romantismo sombrio mergulhava na melancolia, na loucura, na vingança e na natureza destrutiva do desejo. Na Alemanha, autores como E.T.A. Hoffmann, Ludwig Tieck e Christian Heinrich Spiess já exploravam alienação existencial e o demoníaco no sexo. Nos Estados Unidos, durante o Renascimento Americano (1830–1865), Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne e Herman Melville se tornaram expoentes máximos: Poe com sua obsessão pela morte, culpa e loucura; Hawthorne com o peso do pecado puritano; e Melville com a natureza humana sombria e autodestrutiva.
Paralelamente — e com forte sobreposição —, desenvolveu-se a literatura gótica, cujo marco inicial é considerado “O Castelo de Otranto”, de Horace Walpole, publicado em 1764. O gótico introduziu atmosferas de terror, suspense, cenários sombrios (castelos em ruínas, paisagens úmidas, mansões assombradas), segredos familiares, elementos sobrenaturais ou pseudo-sobrenaturais e heroínas em perigo constante. Autoras como Ann Radcliffe (“Os Mistérios de Udolpho” e “Um Romance Siciliano”) refinaram o gênero, misturando mistério com romance. Mary Shelley, com “Frankenstein” (1818), trouxe o monstro como figura trágica e romântica, enquanto o herói byroniano[1] — charmoso, torturado, perigoso e moralmente ambíguo, inspirado em Lord Byron — adicionou profundidade psicológica.
É nesse cruzamento entre romantismo sombrio e literatura gótica que surge o romance gótico propriamente dito, no qual o elemento romântico ganha centralidade. A paixão intensa, muitas vezes proibida ou obsessiva, acontece em meio a perigo, mistério e atmosfera opressiva. “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë (1847), é frequentemente apontado como o grande protótipo do que viria a ser o dark romance moderno. Heathcliff, o anti-herói vingativo, obsessivo e aparentemente irredimível, vive uma paixão destrutiva e transcendente com Catherine. O livro foi criticado na época como brutal e selvagem — reação semelhante à que muitos dark romances atuais recebem. “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë, complementa essa tradição com elementos góticos fortes (a “mulher louca no sótão[2]”) e um romance marcado por segredos e poder desequilibrado. No século XIX tardio, Bram Stoker com “Drácula” (1897) reforçou a sedução perigosa e o erotismo sombrio.
No século XX, a tradição gótica continuou influenciando o romance comercial. Daphne du Maurier, com “Rebecca” (1938), criou uma história de obsessão, ciúme e mansão assombrada que ainda ecoa no gênero. A partir dos anos 1970 e 1980, os chamados “bodice rippers”[3] popularizaram heróis alfa dominantes, cenas de sedução questionável (muitas vezes violentas ou forçadas, o que hoje seria altamente criticado), dinâmicas de poder desequilibradas e paixão intensa. Autoras como Kathleen Woodiwiss e Judith McNaught ajudaram a moldar o romance de massa com elementos sombrios.
Nos anos 1990 e 2000, o gênero ganhou contornos mais explícitos com a fusão entre romance, fantasia sombria e erotismo. Anne Rice trouxe vampiros sensuais e torturados, enquanto Anne Bishop, na trilogia “As Joias Negras”, explorou mundos dominados por trauma, poder extremo e sexualidade intensa. Aqui começa a transição clara para o que hoje chamamos de dark romance: o foco deixa de ser apenas o terror ou a atmosfera gótica e passa a residir no relacionamento central — obsessivo, tóxico, moralmente cinzento —, muitas vezes com alto teor erótico.
O grande ponto de virada para o dark romance contemporâneo ocorreu em 2011, com o fenômeno “Cinquenta Tons de Cinza”, de E.L. James. Originalmente uma fanfic inspirada em “Crepúsculo”, o livro popularizou em escala global dinâmicas de poder (BDSM), trauma, obsessão e um herói dominante e problemático. Apesar das críticas quanto à representação de consentimento e abuso, a obra abriu as portas para que o “dark” se popularizasse. A partir daí, plataformas como Tumblr, Wattpad e, especialmente, o Kindle Unlimited permitiram que autoras independentes explorassem subgêneros específicos: romance de máfia, romance com motociclistas (MC), stalker romance, captive romance, bully romance e enemies-to-lovers extremos.
O boom definitivo veio nos anos 2020, impulsionado pelo BookTok (TikTok literário). “Assombrando Adeline” (Haunting Adeline), de H.D. Carlton, publicado em 2021, tornou-se um ícone: com stalker obsessivo, temas tabus, hot pesado e gatilhos explícitos, o livro viralizou e consolidou o gênero. Hoje, o dark romance é caracterizado por personagens moralmente ambíguos (anti-heróis perigosos, frequentemente criminosos ou violentos), relacionamentos intensos e desequilibrados, exploração de trauma, redenção dolorosa (ou ausência dela) e cenas eróticas explícitas. Os finais costumam ser “felizes por enquanto” ou felizes de forma sombria, sempre dentro do campo da fantasia.
No Brasil, o gênero ganhou força expressiva em meados de 2020–2023, impulsionado pelas mesmas redes sociais e pela Amazon. Subgêneros/tropos/categorias como romance de máfia/cartel são especialmente populares, com heróis perigosos e protagonistas que enfrentam obsessão e poder. Há uma comunidade ativa de autoras nacionais e leitoras que discutem intensamente temas como consentimento informado, fantasia vs. realidade e o papel dos avisos de gatilho. O debate é vivo: muitos criticam a romantização de comportamentos abusivos, enquanto defensoras argumentam que se trata de fantasia segura, catarse emocional e exploração de desejos tabus.
Em suma, a árvore genealógica do romance sombrio parte do Romantismo, que valorizou a paixão extrema; ramifica-se no romantismo sombrio e na literatura gótica, que legitimaram a exploração da escuridão humana; ganha forma no romance gótico clássico com obras como “O Morro dos Ventos Uivantes”; transita pelo romance comercial do século XX com heróis dominantes; e explode no século XXI como subgênero erótico digital, adaptado às demandas contemporâneas de erótico, tabus e representatividade emocional. O que une todas essas etapas é o mesmo fascínio: o amor não como algo leve e idealizado, mas como força poderosa, perigosa e reveladora da complexidade da alma humana.
Essa progressão mostra que o dark romance não é uma moda passageira, mas a continuação moderna de questionamentos literários centenários sobre desejo, poder, trauma e redenção. Nos dias de hoje (2026), ele continua evoluindo e gerando discussões importantes sobre ética na ficção, sempre com uma legião fiel de leitoras que encontram nele tanto prazer quanto reflexão.
PARA CONSULTAS EXTERNAS
AMERICAN LITERATURE. Dark Romanticism Study Guide. American Literature, 2021. Disponível em: https://americanliterature.com/dark-romanticism-study-guide/. Acesso em: 27 abr. 2026.
BOTTING, Fred. Gótico. Tradução de Marina Sena. São Paulo: Clepsidra, 2025. Disponível em: https://amzn.to/3ON8PQg.
BLISS, Brittni. A brief history of the dark romance genre: where it came from and how it evolved. Dark Romance Reviews, 2026. Disponível em: https://darkromancereviews.com/history-of-dark-romance/. Acesso em: 27 abr. 2026.
BRONTË, Charlotte. Jane Eyre. Tradução de Patricia N. Rasmussen . São Paulo: Principis , 2021. Disponível em: https://amzn.to/3QDB30n.
BRONTË, Emily. O morro dos ventos uivantes. Tradução de Julia Romeu. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2021. Disponível em: https://amzn.to/41XiRkR.
CARLTON, H. D. Assombrando Adeline. Tradução de Helena Mussoi . São Paulo: Editora Cabana Vermelha, 2022. Disponível em: https://amzn.to/4tlKHCF.
DU MAURIER, Daphne. Rebecca. Tradução de Regiane Winarski. Rio de Janeiro: Darkside Books - Darklovers, 2023. Disponível em: https://amzn.to/42FXJ2B.
HOPE, Joan. The Madwoman in the Attic. EBSCO, 2023. Disponível em: https://www.ebsco.com/research-starters/literature-and-writing/madwoman-attic. Acesso em: 27. Abr. 2026.
JAMES, E. L. Cinquenta tons de cinza. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012. Disponível em: https://amzn.to/4vWkUmX.
MAGALHAENS, Leonardo de. Alegorias dramáticas do herói romântico. Letras In.Verso e Re.Verso, 2015. Disponível em: https://www.blogletras.com/2015/02/alegorias-dramaticas-do-heroi-romantico.html. Acesso em: 27 abr. 2026.
MULVEY-ROBERTS, Marie (ed.). The Handbook to Gothic Literature. London: Macmillan Press, 1998.
OSTBERG, René. O Morro dos Ventos Uivantes. Enciclopédia Britânica. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Wuthering-Heights. Acesso em: 27. abr. 2026.
PUNTER, David. The Literature of Terror: a History of Gothic Fictions from 1765 to the present day. 2. ed. London: Longman, 1996. 2 v.
SHELLEY, Mary. Frankenstein ou o moderno Prometeu. Tradução de Christian Schwartz . São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015. Disponível em: https://amzn.to/48Wz4dO.
WALPOLE, Horace. O castelo de Otranto. Tradução de Oscar Nestarez. SP: Novo Século Editora, 2019. Disponível em: https://amzn.to/4cXebQV.
NOTAS
[1] O herói byroniano é um arquétipo romântico criado por Lord Byron, caracterizado como um rebelde solitário, inteligente, cínico e misterioso, frequentemente com um passado sombrio. Ele se desvia das normas morais, sendo arrogante e autodestrutivo, mas capaz de grande afeição (Magalhaens, 2015).
[2] É uma metáfora literária e um conceito crítico central para o feminismo, popularizado por Sandra Gilbert e Susan Gubar (1979). Refere-se à Bertha Mason de Jane Eyre, uma personagem que, trancada no sótão por seu marido, representa a raiva, a rebeldia e a repressão impostas às mulheres escritoras no século XIX. Gilbert e Gubar argumentam que, no século XIX, as escritoras confinavam suas personagens a dois estereótipos: o "anjo" (submissa, pura) ou o "monstro/louca" (rebelde, desgrenhada). A louca no sótão é a manifestação da revolta da autora contra as restrições sociais. Bertha é vista como um "duplo" ou reflexo oculto da protagonista submissa (Jane Eyre), extravasando a fúria e o desejo que a heroína principal não pode demonstrar (Hope, 2023).
[3] Bodice rippers (tradução literal, Rasgadores de corpetes) são romances históricos ou góticos populares entre as décadas de 1970 e 1980, caracterizados por tramas intensas, capas dramáticas (geralmente com um homem agarrando uma mulher) e conteúdo sexual explícito, frequentemente incluindo violência sexual e consentimento duvidoso (Bliss, 2026). O termo é, às vezes, usado de forma pejorativa para qualquer romance "picante", mas originalmente refere-se a essas obras de época específicas. Embora tenham sido populares no passado, os “bodice rippers” clássicos diferem do "romance dark" contemporâneo, que costuma ter cenários modernos e tratar temas de consentimento de forma diferente.